Emigrar, aguardar e empreender: quando o emigrante vira empresário (e o apoio não chega)
Há uma imagem repetida do emigrante como alguém que “vai trabalhar” e ponto final. Mas a realidade é mais estranha e mais interessante: em certos contextos, o emigrante não fica apenas no emprego — com o tempo, transforma-se em empresário. E isso levanta perguntas incómodas: quanto tempo demora essa viragem? De onde vem o dinheiro? Quem compra? Quem fornece? E, sobretudo: o que é que os países de acolhimento (e a União Europeia) apoiam mesmo, na prática?
1) O tema: empreendedorismo português na Europa (um assunto pouco estudado)
O estudo de José Carlos Meneses Rodrigues parte de uma constatação simples: o empreendedorismo dos emigrantes portugueses dentro da União Europeia tem sido pouco investigado. Para reduzir essa lacuna, o autor trabalha com resultados do projeto Empreendedorismo dos empresários portugueses em Andorra, Nice, Mónaco e Londres, que recolheu informação ao longo de vários anos (2010 a agosto de 2015) e procurou mapear como se constrói, na vida real, o caminho “emigrante → empresário”.
O título do artigo já entrega a lógica do processo: primeiro emigra-se, depois espera-se (a tal fase de adaptação e de “aguardar”), e só mais tarde se empreende. Ou seja, o empreendedorismo não aparece como impulso romântico, mas como resultado de tempo, aprendizagem e sobrevivência num sistema novo.
2) Como o estudo foi feito: números + entrevistas (quantitativo e qualitativo)
Para evitar conclusões no vazio, o projeto combinou duas abordagens:
- Quantitativa: 124 inquéritos a empresários portugueses (51 em Londres, 51 em Andorra e 22 em Nice/Mónaco), recolhidos em trabalho de campo realizado em 2013.
- Qualitativa: análise de conteúdo de 30 entrevistas semiestruturadas a empreendedores.
Este “duplo motor” (dados + narrativas) permite perceber tanto os padrões gerais — idades, prazos, setores, financiamento — como o lado vivido: burocracias, dificuldades, estratégias de adaptação, redes familiares e escolhas reais no mercado.
3) O que o autor quis medir: do estatuto ao mercado, passando pelos apoios
O estudo organiza-se em objetivos claros. Entre os principais, destacam-se:
- Reconhecer o processo de mudança de estatuto (de trabalhador por conta de outrem para empreendedor).
- Identificar recursos financeiros e humanos usados na criação e consolidação da empresa.
- Compreender a relação com o mercado através de clientela e fornecedores.
- Recolher propostas de melhoramento para áreas mais sensíveis: burocracia, financiamento, impostos e apoio institucional.
- Clarificar dimensões laterais mas importantes: setores mais comuns, tempo até abrir a empresa, existência de apoios nos países de acolhimento e até a questão do regresso a Portugal e os seus constrangimentos.
É um desenho ambicioso, mas com foco: em vez de vender “histórias bonitas”, o artigo tenta explicar como é que se constrói uma empresa emigrante no mundo real — com limitações, fricções e improvisos.
4) “O empreendedorismo não tem pátria” — mas tem contexto
Antes de mergulhar nos resultados, o texto faz um enquadramento conceptual: a diáspora e os movimentos migratórios são parte estruturante da história, e o empreendedorismo aparece como uma via relevante em contextos de mobilidade. O autor lembra que há olhares positivos: o empreendedor cria emprego, riqueza, revitaliza bairros e pode abrir mercados através de redes transnacionais. Noutras palavras: a migração não é só “mão de obra”; pode ser também “motor económico”.
Mas o artigo também descreve o reverso europeu — dificuldades de liderança, estagnação económica, distância das populações às decisões e tensões sociais. A pergunta que paira é: numa Europa com crises e desemprego, a migração pode tornar-se, com o tempo, um campo de empreendedorismo a explorar? O autor não afirma como certeza; coloca como possibilidade que merece investigação.
5) Apoios e discursos europeus: muito reconhecimento, pouco ajuste
O texto passa por documentos e orientações que reconhecem o potencial do empreendedorismo imigrante. Em teoria, é vantajoso: pode criar emprego, melhorar integração e até aumentar comércio entre países. Existem planos e estratégias (como o Plano de Ação Empreendedorismo 2020) com pilares como educação, ambiente favorável ao crescimento e atenção a grupos cujo potencial empreendedor não está a ser aproveitado.
Só que o estudo confronta esta retórica com a perceção dos empresários portugueses, sobretudo no caso de Londres: muitos não se revêem, globalmente, na existência de programas de apoio ao negócio ou num ambiente “amigo do empreendedor” tal como algumas fontes descrevem. O que aparece, em contrapartida, são requisitos e condições formais, exigências financeiras e barreiras práticas que nem sempre dialogam com a realidade do emigrante que começa do zero.
E aqui entra o subtítulo do artigo: (Des)apoios. A sensação captada é que há mecanismos e palavras bonitas, mas que o suporte pode não estar calibrado para o caso concreto do empreendedor emigrante português.
6) Resultado central: primeiro adapta-se, só depois se cria empresa
Um dos achados mais consistentes é o tempo. O empreendedor não “chega e abre”. Pelo contrário: a grande maioria cria a empresa mais de seis anos após a chegada ao país de acolhimento. O estudo interpreta isto como sinal de um período de adaptação ao mercado de trabalho e às condições de vida — uma fase onde se aprende legislação, práticas burocráticas, cultura empresarial e onde se constroem relações e estabilidade mínima.
Essa espera é o “aguardar” do título: um tempo que pode parecer passivo, mas que é, na prática, uma engenharia invisível de sobrevivência e preparação.
7) Como se financia o negócio: poupanças pessoais mandam (e sócios são raros)
No momento de formar a empresa, a lógica financeira é marcante: o recurso a poupanças pessoais surge como a via dominante. Em segundo lugar aparece o empréstimo bancário. Em Andorra e em Londres observa-se uma distribuição mais equilibrada entre poupanças e crédito, enquanto em Nice/Mónaco as poupanças continuam com peso forte.
Um detalhe relevante: investimento de associados/sócios tem expressão muito baixa, sugerindo que a maior parte das empresas é construída sem uma estrutura societária robusta — mais “negócio próprio” do que “empresa com parceiros”.
Isto encaixa com uma realidade típica de emigrantes empreendedores: capital inicial limitado, necessidade de provar viabilidade, e dificuldade em aceder a crédito em condições favoráveis.
8) Em que áreas empreendem? Quatro setores dominam
O retrato setorial é nítido. As empresas concentram-se sobretudo em:
- Alojamento, restauração e similares (a área mais representativa no conjunto)
- Comércio por grosso e a retalho
- Serviços
- Construção civil (com maior peso em Nice/Mónaco)
Andorra e Londres seguem mais de perto o padrão global (com restauração/alojamento muito forte). Já Nice/Mónaco tem uma nota própria: além da restauração e comércio, a construção civil aparece com destaque.
O artigo ainda sublinha a construção civil como um domínio “quase masculino”, mostrando como certos setores continuam a ser marcados por dinâmicas de género.
9) Tamanho e emprego: predominam pequenas empresas
Do ponto de vista de recursos humanos, o retrato é o da pequena escala: a maioria das empresas tem entre 1 e 5 empregados. Há um grupo menor com 6 a 10, e poucos casos com números mais elevados.
Um dado social importante: a maioria não contratou empregados diretamente de Portugal; apenas uma fração o fez. Ainda assim, o estudo identifica aumento de contratações em períodos associados ao agravamento das condições económicas em Portugal, sugerindo ligação entre crises no país de origem e mobilidade laboral para reforçar negócios no exterior.
10) Mercado com ADN português: clientes e fornecedores sustentam
Aqui está um ponto-chave: as empresas não existem num vazio. Elas vivem de redes, confiança e hábitos de consumo — e o estudo mostra uma forte presença da matriz portuguesa na sustentabilidade dos negócios.
A clientela portuguesa tem valores sempre consideráveis (em média, acima dos 40%), e em Londres essa média é significativamente mais alta do que em Andorra e Nice/Mónaco. O texto também aponta que, no conjunto, empresárias tendem a ter mais clientes portugueses do que empresários.
Do lado da oferta, os fornecedores portugueses também aparecem com percentagens elevadas, e há ainda fornecedores sediados em Portugal com presença não desprezável — o que pode indicar aquisição e comercialização de produtos tipicamente portugueses nos mercados de acolhimento.
Traduzindo: muitas destas empresas são, ao mesmo tempo, negócio e ponte cultural/económica. Vendem para a comunidade, compram à comunidade, e ajudam a manter “paisagens de portugalidade” nos contextos urbanos onde se inserem.
11) Pontos fortes e fracos segundo os próprios empresários
O artigo inclui a perceção dos empreendedores sobre o que funciona e o que falha nas suas empresas, organizando-a em três dimensões: eficácia, produto/serviço e dinâmica interna.
O elemento mais valorizado tende a ser o produto/serviço — ou seja, os empresários consideram que aquilo que vendem (o que fazem) é, em geral, o ponto mais sólido. A dinâmica interna surge também bem avaliada e a eficácia aparece como outra dimensão relevante, com nuances por território.
Há ainda uma observação interessante: em Andorra, onde se mencionam obstáculos burocrático-legais, alguns inquiridos (homens) também associam a sua empresa a maior eficácia — como se a competência prática fosse parte do “kit de sobrevivência” para lidar com burocracia.
12) O que pedem para melhorar: menos peso, mais condições
Quando se pergunta “o que faria diferença?”, surgem propostas muito concretas. As medidas mais referidas para fomentar o empreendedorismo nos países de acolhimento passam por:
- Legislação/política mais ajustada
- Redução de impostos
- Melhorias práticas (transportes/estacionamento)
- Facilidade no financiamento e melhoria do nível de vida
- Apoio da embaixada portuguesa
- Fomento do turismo
- Promoção de formação
- Medidas residuais como reduzir rendas e melhorar comunicação entre empresas portuguesas e locais
O subtexto é claro: o empreendedor emigrante quer menos fricção e mais previsibilidade. Quer um ambiente onde crescer seja possível sem atravessar um “labirinto burocrático” ou um muro de acesso ao crédito.
13) Fecho: o retrato final e o que fica por investigar
No final, o estudo junta peças que encaixam num padrão coerente: o empreendedor emigrante português tende a iniciar o percurso empresarial com base na profissão que já conhecia, cria sobretudo PME, demora anos até avançar, financia-se majoritariamente com recursos próprios e sustenta o negócio com redes de clientes e fornecedores ligados à comunidade portuguesa.
Ao mesmo tempo, o artigo destaca a sensação de lacuna: apesar de existirem discursos e planos europeus sobre empreendedorismo, muitos empreendedores sentem falta de apoio mais eficaz e ajustado ao terreno. E, mesmo quando o negócio funciona, o tema do regresso a Portugal permanece como realidade emocional e prática, com laços familiares e integração local a tornarem as decisões mais complexas do que parecem à distância.
Para investigações futuras, o autor aponta linhas claras: alargar o estudo a outros territórios com forte empreendedorismo português, aprofundar problemas burocrático-legais, explicar dificuldades de acesso ao crédito e analisar a internacionalização de empresas ligadas ao país de origem.
Em resumo: emigrar não é só mudar de país — é entrar num sistema novo, sobreviver, aprender, criar rede e, só depois, ter margem para empreender. O “aguardar” não é fraqueza: é estratégia. E o “(des)apoio” é a pergunta que fica a ecoar: se a Europa quer empreendedorismo, está mesmo a construir as condições para ele acontecer?